TPW – Testando sistemas legados: classes Utils 2

Posted by Rodrigo Panachi on março 03, 2009

Aproveitando o gancho do post anterior sobre manipulação de dependências, decidi dedicar um post apenas sobre este tema, pois acredito ser de grande ajuda para todos desenvolvedores que precisam manter código legado.

Em projetos legados é comum encontrarmos classes Util (aka Helpers) espalhadas por todo o código, fazendo desde coisas simples como formatar datas ou números, até coisas mágicas como cache de objetos, operações com reflection, escrita de logs, etc. Mesmo que tenham sua “utilidade”, são um terror quando falamos de testes! Além de ser um forte indício de um design fraco, as chamadas a seus métodos, geralmente estáticos, geram dependências nas classes que a utilizam.

Este é a estrutura comum (bem simplificada) de uma classe Util com métodos estáticos:

public class MagicUtil {
    public static String getConstanteSecreta() {
        return "VALOR_SECRETO_AMBIENTE";
    }
}

Neste caso, uma boa estratégia para os testes seria encapsular a chamada da classe Util em um método protected, para que seja sobrescrito na classe de teste, assumindo o comportamento desejado. Porém, se a classe Util for largamente referenciada no projeto (o que é comum) seria preciso refatorar todas a classes que a utilizam para escrever um teste completo.

A estratégia proposta é refatorar a classe Util, aplicando o padrão Singleton e transformando os métodos estáticos em métodos de instância, porém mantendo as assinaturas estáticas, que devem referenciar os métodos da instância. Uma vez que a Util pode ser instanciada (mesmo que internamente), é possível manipular seu comportamento através da injeção de um objeto Mock, por exemplo:

public class MagicUtil {
    private static MagicUtil instance = new MagicUtil();
    protected static MagicUtil getInstance() {
        return instance;
    }
    protected static void setInstance(MagicUtil obj) {
        instance = obj;
    }
    public String getConstanteSecretaInstancia() {
        return "VALOR_SECRETO_AMBIENTE";
    }
    public static String getConstanteSecreta() {
        return getInstance().getConstanteSecretaInstancia();
    }
}

Assim, a Util continua com o mesmo comportamento e seu contrato foi mantido. Agora, no seu teste, basta escrever o mock (estendendo a classe e sobrescrevendo os métodos) e injetá-lo na instância interna da Util:

public class ClasseTest {
    @Test
    public void testaMetodoDependenteDeMagicUtil() {
        new MagicUtil() {
            {
                setInstance(this);
            }
            public String getConstanteSecretaInstancia() {
                return "MEU_VALOR_MOCK";
            }
        };
        Assert.assertEquals("MEU_VALOR_MOCK", MagicUtil.getConstanteSecreta());
    }
}

Neste caso a classe anônima (que estende a Util) passa sua própria instância (this) para o método protegido setInstance(). Note que a chamada do método (estático) da Util continua igual ao da classe original, sem o refactoring.

Nos projetos que preciso manter, esta estratégia tem sido muito útil para resolver os problemas das “teias” de Utils. Porém é um recurso paliativo e não deve ser utilizado como o “padrão”. O ideal é sempre evitar classes Utils, lembrando que uma classe deve sempre ter comportamentos bem definidos e o nome já deve indicar sua responsabilidade.

TPW – Testando sistemas legados: automatizando o build 2

Posted by Rodrigo Panachi on fevereiro 11, 2009

Imagine o cenário: você caiu de para-quedas naquele projeto que todo mundo na empresa fez gambiarra deu manutenção e agora precisa implementar uma nova funcionalidade. Mesmo que tenha alguma documentação, vai ser inútil neste caso. Então você começa a vasculhar o código e encontra dezenas de classes com nomes parecidos, vários arquivos XML’s dos inúmeros frameworks utilizados anteriormente, TO’s, VO’s, Actions, Utils… ou seja, um lugar cheio de janelas quebradas.

O mais fácil neste caso seria fazer seu trabalho, quebrando mais algumas janelas caso necessário, e cair fora o quanto antes. Mas você, desenvolvedor ágil, sabe que além de ser falta de profissionalismo, você corre o risco de cair novamente no mesmo projeto. Então aproveite a oportunidade para fazer uma pequena faxina e preparar o projeto para escrever os testes das novas funcionalidades que irá desenvolver, garantido assim a qualidade, pelo menos, do seu trabalho.

Durante minha carreira fui obrigado tive a oportunidade de dar manutenção em diversos projetos “frankenstein” de onde adquiri certa experiência para poder “organizar a casa” e trabalhar decentemente no código. É claro que não estou falando em escrever testes para o projeto inteiro, mas pelo menos garantir a qualidade do código que desenvolvi ou irei desenvolver.

Há um certo padrão que todo software de qualidade deve seguir. Além dos padrões e boas práticas como organização do código em pacotes vs. responsabilidade, uma coisa essencial para o projeto é sua construção, ou seja, a forma que o software é “entregue”. Acredito que este seja o primeiro passo para começar a organizar a bagunça de um projeto.

A construção do projeto deve ser automática e desempenhada por uma ferramenta de build como o Ant ou Maven, com tarefas (tasks) e objetivos bem definidos. Normalmente, um build do projeto deve:

  1. Preparar o código e dependências
  2. Compilar os arquivos fontes
  3. Executar os testes
  4. Empacotar a distribuição

No exemplo abaixo usarei o Ant, que é a ferramenta de build (para Java) mais popular do mercado e muito simples de utilizar. O importante neste processo é ser pragmático: não perca o foco! Você poderia (e futuramente deveria) utilizar o Maven, mas adequá-lo a um sistema legado não é tão simples quanto parece.

Tendo os objetivos do build definidos, basta escrever o script do Ant. Isso deve ser feito no arquivo build.xml, no root do projeto. As tarefas são definidas pelas tags <target> e podem ser dependentes para garantir a sequencia de execução. Em cada target são definidas as ações executadas, como rodar o compilador (javac), copiar um arquivo, rodar os testes, etc. Uma vez que as tarefas estão configuradas, basta executar o build pelo próprio IDE ou linha de comando.

<project name="frank" default="package">
    <path id="classpath">
        <pathelement location="build/bin"/>
        <fileset dir="src">
            <include name="*.java"/>
        </fileset>
        <fileset dir="lib">
            <include name="*.jar"/>
        </fileset>
    </path>
    <target name="clean">
         <delete dir="build"/>
          <mkdir dir="build"/>
    </target>
    <target name="compile" depends="clean">
        <javac srcdir="src" destdir="build">
            <classpath refid="classpath"/>
        </javac>
    </target>
    <target name="test" depends="compile">
        <junit>
            <classpath refid="classpath"/>
            <batchtest>
                <fileset dir="build" includes="*Test"/>
            </batchtest>
        </junit>
    </target>
    <target name="package" depends="compile, test">
        <war destfile="frank.war" webxml="web/WEB-INF/web.xml">
        <classes dir="build"/>
    </target>
</project>

Neste script estão definidas as tarefas necessárias para executar um build, conforme citei anteriormente. Por enquanto isto será o mínimo necessário para dar suporte as próximas etapas da sua missão. Mesmo que o projeto já tenha um build em Ant aproveite para revisá-lo. Tarefas bem simples e bem definidas são mais fáceis de entender e manter.

Com o build implementado, você não terá mais que se preocupar com o empacotamento do projeto. Agora comece a direcionar seus esforços para escrever os testes. Deixe que o Ant se encarregará de executá-los para você.

No próximo post vou apresentar alguns padrões e práticas de refactoring utilizados para possibilitar escrever testes que dependem de classes legadas do projeto.