Agilidade cascateira 2

Posted by Rodrigo Panachi on dezembro 16, 2008

Atualmente as metodologias ágeis vêm aparecendo com cada vez mais freqüência nas empresas que desenvolvem software, introduzidas pelos próprios desenvolvedores (o que é mais comum) ou em alguns raros casos pela “cúpula” da empresa, na esperança de melhorar a produtividade e/ou o alto tempo de resposta do fracassado processo cascateiro. Porém, esta “fama” prematura dos métodos ágeis tem gerado mais resultados ruins do que bons. Sua aplicação na vida real, na maioria em muitos casos, ocorre de maneira equivocada, distorcida e desprezando-se os reais valores e princípios que apoiaram o surgimento desta filosofia.

Um exemplo claro de como os valores ágeis estão sendo desprezados distorcidos é o aumento constante de “cursos” e treinamentos de metodologias ágeis. Não é raro eu receber semanalmente vários spams e-mails de escolas de treinamento que ministram cursos de Scrum, XP, preparação para certificação ScrumMaster, técnicas de TDD, DDD, BDD, etc. Infelizmente o que estes cursos não ensinam (como todos os outros) é o verdadeiro significado de “ser ágil”. Fazer um curso de 20 horas de Scrum não o torna um ScrumMaster (você pode até ter um certificado, mas se você realmente é “ágil”, sabe que um certificado é um mero pedaço de papel sem valor).

E assim chegamos à “agilidade cascateira”, onde todos na empresa estufam o peito para falar que seguem práticas ágeis, desenvolvimento orientados à testes, utilizam Scrume para gerenciar os projetos, etc. Na verdade estão apenas praticando um waterfall incremental, cometendo os mesmos erros clássicos da cascata, valorizando os processos ao invés das pessoas, focando em soluções equivocadas ao invés de resolver os problemas dos clientes e assim, difamando e denegrindo a reputação e o propósito do AgileManifesto.

Esse é o cenário ideal para os guardiões cascateiros. É por estes e outros motivos que vemos “flames” oportunistas como The Decline and Fall of Agile começarem a fazer sentido na comunidade. Como disse o Guilherme Chapiewski, as pessoas estão querendo ir direto para a sobremesa e esquecendo de comer seus vegetais. Utilizar uma metodologia ágil não é desenvolver software de forma anarquista, existe muito conceito e experiência adquirida para sustentar esta filosofia.

Neste blog você já viu várias maneiras de como ser um verdadeiro cascateiro e de como não ser ágil. Já que estamos falando nisso, vamos tentar resumir alguns pontos e características que tornam um desenvolvedor realmente ÁGIL!

Estude, mantenha-se atualizado!

A principal característica de um agilista é sua sede por conhecimento, sua busca incansável por novas técnicas, linguagens, ferramentas, etc. O seguidor ágil lê artigos, revistas, livros e o faz como diversão. Se você não leu pelo menos um livro técnico nos últimos 6 meses, isto é um mal sinal. Faça laboratórios, testes de novos frameworks, bibliotecas, etc. Pet-projects também são uma maneira pragmática de aprender novas formas e técnicas de desenvolvimento. Finalmente, conheça e pratique os princípios e valores do AgileManifesto, tendo-os como seu mantra, seu guia filosófico e seu mentor profissional.

Entenda realmente o problema do seu cliente

Isto parece ser óbvio, mas na maioria das vezes não é. Existem vários perfis de clientes, e é claro que você deve lidar de maneiras diferentes com cada um deles.

Alguns são visionários sonhadores e sempre têm necessidades mirabolantes, sem sentido. Outros são simplistas demais e muitas vezes “ocultam” detalhes importantes. Também existem os pseudo-técnicos, que acham que sabem fazer seu trabalho e já vêm sugerindo como você deve implementar aquela nova funcionalidade.

Reação comum quando há um problema

Reação comum quando há um problema

Como verdadeiro agilista, saber identificar o perfil de seu cliente é o início para um relacionamento de confiança e transparência. Só assim você será capaz de concentrar esforços para resolver seu problema e agregar valor ao produto.

Não tenha medo de mudanças

A única maneira de criar, corrigir ou melhorar algo é com coragem E com mudança. O essencial para mudar algo é saber identificar o que está errado. Por exemplo, você sofre diariamente para fazer o deploy da sua aplicação para homologação. Identificado o problema e uma possível solução, por exemplo, fazer o deploy em .war, você tem duas soluções: ou deixa como está e coloca a culpa na aplicação ou no processo de desenvolvimento (conformismo) ou com muita coragem investe algumas horas e resolve de vez o problema (agilismo).

Quando bater a insegurança, repita: coragem! coragem! coragem!

Coragem: o cão covarde!

Reflita e aprenda com os próprios erros

Existem várias maneiras de você evoluir seu conhecimento, e a maioria dos programadores utilizam somente uma: tomando na cabeça.

Prego só toma na cabeça!

Prego só toma na cabeça!

Como um bom seguidor de práticas ágeis, reflita e aprenda com seus erros. Compartilhar seus problemas é a melhor maneira de escolher um solução adequada e ainda espalhar sua experiência entre a equipe para que outras pessoas não cometam o mesmo erro.

Errar é humano. Persistir no erro é burrice. Se você está com problemas, procure por pessoas que já tiveram um problema parecido e aprenda com ele. Não cometa os mesmo erros, e mais importante, não cometa os mesmo erros dos outros!

Resumo

Se tudo que você leu até agora não é novidade, parabéns! Caso contrário comece o quanto antes estudar e principalmente praticar estes conceitos no seu trabalho e na sua vida.

Seja responsável e comprometido com seu trabalho. Esforce-se para fazer o melhor. Faça valer o seu salário. E lembre-se: cuidado com os falsos agilistas!

Foco no problema 1

Posted by Rodrigo Panachi on novembro 10, 2008

Desenvolver software é uma atividade muito gratificante pois sempre podemos (ou deveríamos) exercitar nossa criatividade para solucionar os problemas dos clientes. Isto, apesar de divertido pode ser perigoso e/ou catastrófico se estivermos com o foco errado. Num ambiente cascateiro, onde cada envolvido está comprometido apenas com o processo e não se preocupa verdadeiramente com os problemas dos clientes, não é difícil que isto ocorra. Quase sempre o foco acaba sendo direcionado para a solução ao invés do problema.

Mas qual a diferença entre foco no problema ou solução? Vamos a um exemplo:

Quando a Nasa enviou os primeiros astronautas ao espaço, descobriu que as canetas não funcionavam com gravidade zero. Para resolver esse problema, os engenheiros contrataram uma empresa especializada para projetar a caneta espacial.
Dez anos e US$ 12 milhões depois, estava pronta a caneta que podia ser usada no espaço, em qualquer posição. Nem a temperatura poderia atrapalhar: a supercaneta funcionava bem fizesse frio ou calor.
Os russos, que tiveram o mesmo problema, optaram por uma solução mais simples: passaram a usar um lápis.

A história acima é bem famosa e mesmo sendo falsa, demonstra muito bem o que acontece quando o problema não está em foco. Neste caso, o problema é a impossibilidade de escrever em gravidade zero. Uma das soluções seria uma caneta que escreva nessas condições. Veja que aqui a solução já está em foco. Outra solução para o problema seria utilizar algo que escrevesse em gravidade zero: um pedaço de carvão ou um giz já serviriam. Assim, o problema seria resolvido.

Outro exemplo de falta de foco no problema é esta história da fábrica de pasta de dente, onde ocasionalmente algumas caixas da pasta de dente eram entregues vazias. Para eliminar este problema, a empresa gastou investiu milhões para garantir que durante a fabricação, nenhuma caixa ficasse sem o tubo de pasta de dente dentro. Mas o problema foi realmente resolvido depois que um operário deixou um ventilador soprando as caixas vazias para fora da esteira de produção. Simples não?

Na área de desenvolvimento de software não é tão raro acontecer algo parecido, onde o foco está inteiramente na solução. Sabe aquele sistema meio capenga, que funciona e dá dinheiro para empresa mas não é “web 2.0″ nem utiliza conceitos de “SOA”? De repente a diretoria decide que este sistema deve ser “migrado” para uma tecnologia da moda mais atual, que o permita “evoluir” mais facilmente.

Para atender esta necessidade, normalmente uma equipe nova é contratada, toneladas de documentos e diagramas são produzidos até que os programadores comecem a codificar. A esta altura, o prazo já está apertado e os “stakeholders” ainda não viram os resultados. Depois de muito tempo e dinheiro desperdiçados, um sistema feito às pressas, bonitinho mas meia-boca, é entregue com os mesmos defeitos do anterior. E o problema não foi resolvido…

Desenvolver software deve ser um investimento lucrativo, proporcionando algum ganho às partes envolvidas. Quando uma necessidade surgir, o primeiro passo é identificar o problema para então encontrar a melhor solução, ou seja, foco no problema. Neste exemplo da “migração”, o problema é que a manutenção do software atual é muito cara, porém “migrar” o sistema inteiro não vai resolver o problema, no máximo criará um novo.

Mas de quem é a culpa quando o foco está na solução? Eu respondo: a cascata! Apesar das metodologias ágeis estarem em alta e aos poucos serem adotadas pelas empresas, a maldição do waterfall ainda é está entre nós. Clientes continuam com a mania de pedir tudo no início do projeto. Ao exporem seus problemas, já estão pensando na solução. Fazem questão de engordar o escopo com coisas das quais não têm certeza da utilidade, mas querem que estejam lá pois podem precisar um dia. Os desenvolvedores também não estão isentos dessa culpa. Um legítimo analista cascateiro não se envolve com os problemas do cliente, apenas ouvem suas solicitações e transformam em casos de uso ou diagramas. É aí que uma simples necessidade se transforma numa bola de neve e a lenda da caneta da Nasa se repete…

Um verdadeiro desenvolvedor ágil deve se comprometer com o cliente, ouvir, entender e se envolver com suas necessidades para então sugerir uma solução simples, focada e que resolva o problema. Esta interação é muito importante e deve ser constante, pois o cliente passa a identificar o que realmente ele precisa, ou seja, o qual seu problema! Assim, começa a se concentrar em funcionalidades que realmente serão úteis e agregarão valor ao software e, consequentemente, ao negócio. Feedback é muito importante. O pessoal do Google sabe muito bem disso…

Software é sobre investimento 6

Posted by Rodrigo Panachi on outubro 30, 2008

Atualmente, desenvolver software não é uma atividade barata. O custo com os profissionais envolvidos, equipamentos, licenças de software (não é o caso se a equipe utiliza software livre), entre outros recursos, para um software que demore em média três meses para ser desenvolvido com uma equipe de 5 pessoas sairá pelo mesmo valor de um carro popular de luxo, por exemplo. Já que o investimento é alto, é importante que o software seja confiável, durável, adaptável e principalmente que sua utilização/adoção, além de atender a um problema/necessidade, obtenha o retorno sobre o investimento.

Para uma empresa que desenvolve software por encomenda, o retorno sobre o investimento (equipe, equipamentos, etc) é o lucro obtido com a venda do software através de uma conta muito simples: investimento - custo = lucro. Desta forma, qualquer CEO sabe que quanto menor for o “custo”, maior será o “lucro”. É aqui que mora o perigo!

Uma das falsas ilusões das metodologias baseadas no waterfall é o controle sobre o processo. Ou seja, com um processo bem engessado definido, o “motor” da empresa giraria de modo uniforme, sendo controlável e mensurável. Uma vez que esse mecanismo esteja funcionando, pode-se conter gastos contratando-se mão-de-obra mais barata para fazer a parte repetitiva e “não-criativa” do processo, que já foi previamente “projetada” pelos analistas e arquitetos. Desta forma, concentra-se a maioria do esforço no projeto ou desenho do software, que é mais caro, para recuperar o “gasto” na fase de construção, que é mais barata.

Waterfall Model

Modelo Waterfal: etapas bem definidas

Este método funciona muito bem… na engenharia civil, onde os problemas são bem definidos (a necessidade de atravessar um rio, por exemplo), a solução deve ser projetada (uma ponte) e executada por especialistas em construção (pedreiros). O esforço pode ser mensurado e cobrado do cliente. Dificilmente ocorrerão mudanças no projeto (ao invés de ponte, decidem mudar para um teleférico, por exemplo) e o tempo de construção pode ser diminuído aumentando-se a mão-de-obra porém permanecendo o mesmo custo no final do processo.

Infelizmente com software não é bem assim. O desenvolvimento de software é (ou deve ser) um processo criativo e iterativo, mais parecido com jardinagem. O problema/necessidade dificilmente é bem definido (dificuldade de controlar as vendas pela internet, por exemplo) e os requisitos geralmente mudam o tempo todo. Os clientes normalmente não sabem exatamente quais são suas necessidades e precisam “aprender” enquanto o software vai sendo desenvolvido, atendendo às necessidades aos poucos.

Cliente não sabe exatamente o que quer

Clientes não sabem exatamente o que querem no início do projeto

Voltando ao assunto do post, para o cliente o que mais importa é que o software atenda suas necessidades (mesmo que ele ainda não saiba exatamente quais são). O retorno sobre o investimento começa a ficar evidente quando o cliente utiliza o software e obtém proveito dele, por exemplo, tendo um maior controle e organização de suas vendas pela internet. Neste caso o software é um meio pelo qual o cliente consegue resolver seus problemas ou atender suas necessidades. Isto o software não faz por sí só.

Para uma empresa que desenvolve software, o retorno sobre o investimento é obtido durante o desenvolvimento do software, guiado por práticas e ferramentas que fornecem velocidade e confiabilidade ao software, deixando-o adequado às necessidades do cliente, estável e fácil de ser mantido. Para obter estas características, a equipe deve estar muito alinhada e ter a experiência e habilidade técnica necessária para evitar trabalho desnecessário e focar na resolução do problema, colaborando com o cliente para fornecer constantemente software funcionando e que agrega valor ao negócio. Ou seja, devem seguir o manifesto ágil!

Atualmente, as empresas de desenvolvimento de software mais bem sucedidas utilizam metodologias ágeis, ou seja, pessoas ao invés de processos. O investimento em um bom profissional é recompensado pela sua experiência que pode economizar muito tempo e dinheiro ao longo de um projeto. Bons profissionais, motivados, utlizando metodologias ágeis são mais produtivos, ou seja, valem o investimento.